Semana Santa
de Braga
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Exposição “Cartazes da Semana Santa (1948 – 2015)”


Exposição de cartazes da Semana Santa de Braga, desde 1948 até 2015.

 

"A Semana Santa de Braga é, no presente, o mais importante evento do calendário anual do município de Braga. Fenómeno turístico, este evento envolve a comunidade num ambiente e vivência muito particular, apelando às raízes cristãs que acompanharam a história da própria cidade. As solenidades bracarenses surgem hoje com um programa unificado e com uma comissão organizadora que tenta mobilizar as entidades civis e religiosas em torno de objetivos comuns, porém, no passado, estava integrada nas dinâmicas próprias do tecido organizacional das instituições religiosas da cidade.

 

A história gráfica deste evento não é tão longa como, por exemplo, a das Festas de São João, celebrações oficiais do município que já detinham um nível de organização e envolvimento social anterior. Foi o Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo (SNI), estrutura do Estado Novo reformulada em 1944, que decidiu trabalhar turisticamente as celebrações da Semana Santa bracarense a partir de 1948. Por isso mesmo, o mais antigo cartaz do evento remonta apenas a esta data.

 

Quer isto dizer que a Semana Santa de Braga apenas se começou a realizar a partir de 1948? Não. Significa simplesmente que o conjunto de cerimoniais públicos realizados durante este período do calendário anual na cidade de Braga, por intermédio de diferentes corporações religiosas, foi integrado num único programa e trabalhado do ponto de vista promocional a partir desta data. Como sabemos, desde que o cristianismo se implantou no nosso território que existem manifestações rituais que memoram a crucificação e morte de Jesus Cristo. Aliás, a procissão com mais antigo registo da Semana Santa de Braga é a Procissão das Endoenças, que detém notícias desde 1628. A história gráfica da Semana Santa de Braga, podemos dizer, inicia-se em 1948 com a conceção do primeiro cartaz registado das celebrações.

 

A partir daí, detemos um número significativo de imagens ilustradas com o objetivo de anunciar e promover a edição anual das Solenidades da Semana Santa. A mais imediata observação fornece-nos algumas indicações básicas, desde logo a tonalidade dominante. O roxo e o negro são as opções mais óbvias como contexto formal do desenho, cores obviamente associadas ao ciclo litúrgico em que a Igreja recorda a Paixão de Cristo – a Quaresma – e também a cor mais associada ao luto e à morte. Existem alguns cartazes que derivaram episodicamente para o azul ou vermelho borgonha, cores aproximadas do roxo.

 

Analisando as ilustrações, o farricoco salienta-se como o elemento iconográfico mais utilizado nos sucessivos cartazes. Esta figura, tipicamente bracarense, representa os penitentes, que hoje são símbolo da Semana Santa, mas que outrora pungiam os seus pecados ao longo do percurso das procissões. A cruz é também elemento primordial de representação, embora esta não replique qualquer formato especificamente bracarense, mas se revele através de incomensuráveis formas de reprodução. A mais frequente é a cruz do descimento, representação desnuda do crucifixo com as hastes laterais envolvidas num tecido branco.

 

Apesar de alguns dos cartazes apresentarem configurações genéricas da cenografia da Paixão de Cristo, a maior parte tenta integrar elementos típicos do cerimonial público das Solenidades de Braga. A imagem do Senhor dos Passos, protagonista da procissão homónima organizada pela Irmandade de Santa Cruz, por duas vezes (1972 e 2008); e a imagem do Senhor Ecce Homo, incardinada na procissão da Irmandade da Misericórdia, igualmente por duas vezes (em 1975 e 1988), foram também recursos iconográficos dos cartazes da Semana Santa.

 

A centralidade do espaço físico da Sé Primaz é inequívoca nestas celebrações e isso mesmo está também patente nas opções iconográficas dos cartazes. Portadora das principais dinâmicas sociais e religiosas de Braga ao longo de vários séculos, a Catedral é igualmente sede espácio-temporal dos acontecimentos que envolvem e determinam a Semana Santa enquanto realidade unívoca. A igreja de Santa Cruz (1988), o Arco da Porta Nova (1953 e 1983) e a Capela dos Coimbras (1977) também foram opção cenográfica.

 

No que concerne à elaboração dos projectos e conceção visual dos cartazes salienta-se inevitavelmente o nome de José Veiga (1925-2002), artista popular bracarense a quem se devia também a autoria dos projectos das decorações de rua associados à Semana Santa. Desde 1957 e, salvo raras exceções, até ao ano da sua morte, o mestre Veiga imprimiu o seu estilo na imagem associada às celebrações bracarenses. O farricoco, elemento determinante do cartaz no seu ano de estreia, foi a representação mais repetida nos seus cartazes, contudo os demais elementos presentes nas procissões foram também um recurso frequente nas ilustrações: por exemplo estandartes processionais (1992 e 1999), pálio (1984) ou umbela basilical (1998). Nomes como Alvim Braga ou Faria Barbosa e, mais recentemente, a agência criativa Paleta de Ideias também se responsabilizaram pela conceção da imagem gráfica do evento.

 

A evolução gráfica denotada na mais imediata avaliação dos cartazes expostos revela também a própria evolução das técnicas de conceção e impressão de cartazes. A maior parte resulta de conteúdos ilustrados manualmente e, progressivamente, de trabalho sobre fotografias. Mais recentemente o design digital substituiu naturalmente as técnicas tradicionais. No capítulo das artes gráficas, as litografias foram sendo substituídas pela impressão através de fotolito particularmente a partir de finais da década de 1970. Hoje em dia o sistema CTP (Computer To Plate) é o mais frequente, facto que acaba por ser determinante na qualidade da execução gráfica dos cartazes. Convém recordar que todos os cartazes expostos são réplicas impressas, não correspondendo a versões originais.

 

Entretanto, a conceção dos cartazes acabaria por influenciar as opções iconográficas a utilizar nas decorações das ruas, particularmente a partir da década de 1990, quando os tecidos deram lugar a estruturas desenhadas. As ruas da cidade, escurecidas pelos tons roxo e negro, completam o cenário triste e soturno da Semana Santa bracarense."

 

[Rui Ferreira, CMB 2015]

 

- Organização da Santa Casa da Misericórdia de Braga e da Câmara Municipal de Braga -

 

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